quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Mãe de UTI - Afago de Deus

A primeira noite longe da minha bambina foi de coração inquieto, que oras estava agitado, oras sem vontade de bater. O corpo estava cansado, pedindo repouso, relaxamento, mas a mente não parava. São tantos sentimentos e pensamentos que brotavam que eu me virava de um lado para o outro sem conseguir de fato descansar...E só para ajudar eu passei a madrugada toda com dor nos pontos. Ainda  acordei por volta das 4:00am pra novamente tomar banho, passar a bendita Andolba e tentar aliviar a dor que de tempo em tempo voltava. E quando finalmente consegui pegar no sono o Rafa me acorda avisando que tínhamos perdido a hora - já passava das 10:00. Respirei fundo, o que traduzindo em palavras seria: "não acredito que no primeiro dia longe já não chegarei a tempo de vê-la!", mas como já havíamos perdido o horário continuamos deitados, ambos estavam esgotados.  O horário de orientação com a médica da manhã é as 10:00 e já que não acordamos em tempo, resolvemos levantar com calma e chegar para a visita das 15:00 para orientação com a médica da tarde. 
Quando me levantei para tomar banho me recordei do dia anterior, de nós, eu e o Rafa, de frente para a encubadora olhando a nossa menininha tão amada, com aquele rostinho miudinho tão parecido ainda com um feto, a fragilidade é tanta que se outra pessoa a visse poderia até pensar ser impossível progredir, pela miudeza do corpo, pelos aparelhos. Por alguns segundos tive medo de perder-la. Embora senti no coração a felicidade da Gi ter a oportunidade de lutar pela vida, o que me fez forte para encarar o seu nascimento tão prematurinho, eu também receei se nas condições que ela estava - ela era pele e osso, estava em oxigenação invasiva, sog, picc -, sob quais condições o seu desenvolvimento iria ocorrer. E a vontade de que fosse eu a estar passando por tudo aquilo ao invés dela era tanta...mas tanta...Vendo o quão aflita eu estava, o Rafa me fez trazer à memória o que as freiras tinham dito no ano passado (contei aqui). "Eliane, Deus te prometeu, lembra?"...Percebendo que não havia nada que ele pudesse falar pra que eu parasse de chorar, ele apenas ligou o som e colocou num dos grupos gospel que eu gosto muito, mas que ele mesmo não costuma ter iniciativa de ouvir (não gostava), eu já estava pronta pra entrar no chuveiro quando ele abriu a porta e disse: "Ely, ouve essa música."

Dá-me um sinal do teu favor
Mostra-me ó Deus que comigo esta.
Vem fortalecer meu coração.
Preciso de tí pra não desmaiar.

Arranca de mim este pranto de dor.
Me veste com veste de louvor
Com óleo da alegria me unges
Com teu espirito vem me curar.

Não haverá impossíveis para o meu Deus
Suas promessas Ele me fará viver
A espera não pode matar a esperança
E as lágrimas Ele enxugará
Com milagres!

Muito mais do que os olhos podem ver
Muito além do que dá pra sonhar
Os Teus milagres, ele me fará viver!


Era tudo o que eu precisava ouvir naquele instante. Lembrei que em muitas vezes enquanto ainda tomava o ácido fólico e estava nas tentativas eu escutava e cantava essa canção na certeza de que não importa o quão difícil fosse, tudo daria certo. Lembrei também de tudo o que eu e o Rafa fizemos juntos pra ter essa graciosa bambina, e de toda reserva que me impus até ali pra que o nosso sonho se tornasse realidade, e que por tudo isso e muito mais eu não poderia me permitir ter pensamentos negativos a essa altura do campeonato. E sobretudo lembrei do que pedi a Deus, lembrei da força com a qual supliquei uma resposta de que, de fato, eu poderia tentar engravidar, e por fim, firmei em minha mente e coração as palavras ditas pelas freiras, do que as pessoas sonharam, dos sonhos que eu tive com a Gi, de modo especial o qual nos orientou quanto ao seu nome..Entrando debaixo do chuveiro e deixando a água cair sobre mim, desejei lavar não só o corpo, mas meu coração, como se aquele ato pudesse renovar-me por inteira para suportar tudo o que estava por vir.


Ao chegar no hospital fui direto para o lactário para coletar leite, e como tinha leitinho! 440 ml numa única tirada. "Alguma coisa tinha que funcionar nesse corpo." - era o que eu respondia quando as outras mães falavam da quantidade do leite que eu coletava, e olha que ainda era colostro. Descobri naquele lactário que leite materno vale ouro, de tanto trabalho que se tem ao apertar daqui/dali pra sair uma gota a mais que seja e assim colaborarmos com a nutrição e ganho de gramas de nossos babys.  Cheguei a comentar com algumas meninas no lactário que já é a segunda vez que tiro leite  na bombinha e que depois de todas essas experiencias certamente meus seios nunca mais serão os mesmos (se bem que namorido disse que estou no momento auge da fartura de busto. Run!Oportunista rs.). De qualquer modo, é apos essas fases que podemos nos valer da cirurgia plástica. Vai que?!Né?! 

Como passei uma noite sem tirar leite, formou nódulos no meu seio, precisando de ajuda de outra pessoa pra massageá-los e assim conseguir coletar. É, eu chorei. Embora senti muita dor e sensibilidade nos seios, desconfio que o choro foi mais pelo medo do meu afastamento da bebê do que qualquer outro motivo que existisse, inclusive pela dor. Tão logo o relógio marcou o horário de visita...Eu estava animada e ansiosa por ve-la. Na noite anterior, a Gi ainda tomava apenas 1 ml de leitinho, e quando me dirigi até a UTI tivemos a surpresa dela estar mamando 2ml de leite de 3 em 3 horas via SOG, ela também recebia nutrição parenteral. Cheguei até a brincar: "Gente!Mas 1 ml só vai sujar a seringa, é uma gota!" Era o que ela poderia receber no momento e tudo seria inserido no tempo dela, de acordo com seu desenvolvimento. Ficamos com a nossa menininha que já estava com outra corzinha de pele, até o ultimo horário de visita (21:00h)...Entre uma conversa e outra com ela, cantei as canções que costumava ouvir e cantar pra ela na gestação. Namorido ainda tímido, conversava com ela, mas sentia-se acanhado pra cantar perto de mim (além dos outros pais equipe médica que entrava e saía da sala...). Eu é que esquecendo de tudo ao meu redor que não fosse ela, deixava todo amor do coração transbordar, fazendo do nosso amor uma canção, nossa conexão, nosso jeito de estreitar o laço maternal, já que segura-la no colo, toca-la inteiramente não era possível (ainda).
Voltei pra casa já contando as horas pra tornar a vê-la, mas com o coração em paz.

Filhinha minha, como você é forte!Me surpreende te ver assim, um ser tão pequenino e frágil, porém tão forte  e guerreira. Lute minha menina, lute por você, por nós, agarre a oportunidade que Deus lhe concede de viver!!!!!! E quanto a esses dias de UTI será dias de vitória, e cada dia passado, menos 1 dia de UTI.

É assim que veremos as coisas a partir daqui: 
Cada dia uma vitória, e menos um dia de UTI!!!
Porque você já nasceu vencendo meu amorzinho. E depois de sair vitoriosa dessa situação, acredite: Você poderá ser e fazer qualquer coisa nessa vida! E eu estarei sempre ao seu lado pra te recordar que você é capaz!!!
Beijos com asas pra que de onde estou voe diretamente ao seu coração. Te amo do tamanho do universo.

Afago de Deus

13 de Agosto de 2013
Hoje a visita à nossa bambina foi especialmente marcada pelo mimo de Deus ao nosso coração. Eu não tinha ideia do que estava por vir. Eu soube que a higienização e troca da encubadora é feita de 7 em 7 dias, e justamente hoje após o horário da visita, a troca seria feita, e Dra estaria nos permitindo segurar a Gí no colo. "Segurar?" "Claro que quero!" "Mas não vou machuca-la? Sei lá, ela é tão magrinha, 830 gramas, posso aperta-la...Ai meu Deus..." Eu falei tantas coisas, e ria ao mesmo tempo que emocionada os olhos enchiam d'agua, tudo pelo nervosismo e insegurança que aflorava o meu coração...E logo  hoje não levamos a câmera. Graças a Deus a Renata, mãe do Natan também prematurinho de 26 semanas, cedeu a câmera para registrar o momento.
As enfermeiras e técnicas ficaram super animadas, celebrando esse momento junto conosco. Na ocasião a Bruna uma das técnicas de enfermagem vibrava conosco, era uma torcida pra que o momento de, pela primeira vez, coloca-la em meu colo acontecesse... 


Eliane Nascimento Sopran - Viver, Amar, Fazer Valer a Pena!!!
O coração acelerado. As palavras que foram ditas entre sorrisos e lágrimas, de emoção ao segura-la no colo pela primeira vez. Como poderia temer? Terei coragem! E não deixarei que nada tenha sido em vão. Principalmente quando vejo que nossa pequena luta pela vida, vencendo todos os obstáculos, como um verdadeiro milagre de Deus! Filha eu lutei todo esse tempo por acreditar que esse tempo chegaria, e agora Deus finalmente trouxe o seu coração ao meu. Não teremos pressa, pois sabemos que cada dia escreverá uma história de amor e milagres. E a cada dia estaremos um passo mais perto de estarmos dia-a-dia juntas!

Minha Menina, amor maior...
Eu nunca encontrarei as palavras para expressar o que senti ao te ter em meu colo pela primeira vez.
Meras palavras não poderiam explicar.
Pequena guerreira,
Como poderia imaginar que um pequeno ser tão frágil e ao mesmo tempo tão forte,  iria prender a minha vida à sua com um laço eterno de amor incondicional?! Ah como eu te amo! Contigo em meus braços o tempo simplesmente parou.



Preciosa filha, não sei se percebeu os meus braços rígidos, e eu chorando copiosamente pelas duas horas que seguiram enquanto a tive em meu colo. Eu sequer ousava me mexer...Papai preferiu não segura-la no colo nesta primeira oportunidade. É  que tanto ele quanto eu estávamos inseguros por tua fragilidade. Mas minha menina, mesmo com toda essa insegurança, nos deixamos conduzir por tua força e garra em viver! E celebramos esse momento especial como um  afago de Deus em nós.
Porque Deus nos abençoou quando nos deu de presente você! E cada palavra que eu escrever é pra dizer do amor e gratidão a Deus e a você por ter nos escolhidos a ser seus pais.
Bambina minha,  eu e seu papito nessa luta vitoriosa contigo.
E  daremos o melhor de nós pra que cada avanço seu aconteça!






sábado, 19 de outubro de 2013

Mãe de UTI - Alta Hospitalar: do Coração Que Continua Perto Mesmo Estando Longe...

Apesar de toda angustia pela situação delicada, nossos primeiros momentos juntas foram de emoção. O Rafa colaborou em muito pra que isso ocorresse através da sua positividade e força que me manteve calma, e sobretudo por ser ele muito brincalhão. Nos dias que seguiram até sexta-feira 09 de Agosto entre uma visita e outra a baby Gí, eu passava pelo corredor da maternidade observando os enfeites porta- maternidade um mais lindo que outro, pensando que sequer tive tempo pra escolher o meu. "Que bobagem!Pare de choramingar as pitangas Eliane, sua filha esta viva e bem, é o que importa!" Dizia firmemente pra mim mesma quando sentia aquela vontade de lamuriar a minha situação.
Eu ainda não sabia bem o que estaria fazendo ali pra ajuda-la de fato, nem a maneira como toca-la sem machuca-la, a pele dela ainda era fina,rosada, brilhante, ainda estava coberta por lanugo (que é aquela penugem fininha), minhas mãos grudava na pele dela de tão fininha, e aqueles aparelhos todos me dava de certo modo um pouco de aflição.
Quando fomos para a visita no dia 09, recebemos a noticia de que a Giovanna precisou ser intubada (inserção de um tubo via oral que vai até o pulmão) pois mesmo com o cpap ela começou a ter queda de saturação, apresentando apneia (pausa respiratória causada pela imaturidade da área cerebral que controla a respiração, comum em prematuros), ou seja, ela "esquecia" de respirar. A primeira conduta adotada quando ocorre a apneia é estimular a baby a "lembrar-se" que precisa respirar esfregando as costinhas dela, esfregar forte os pés dela, a barriguinha. Ela começou a fazer uso de cafeina, indicados para esses casos, e assim foi intubada. Foi a Dra Silvania quem nos acalmou informando que era esperado isso ocorrer devido a prematuridade. "Esta dentro do esperado" - Como ouvimos essa frase! Em certos momentos nos dias que seguiram, essa frase parecia até um bordão usado pelas médicas, enfermeiras, técnicas...

Coleta de Leite - a primeira experiência no lactário

Ainda em visita a baby Gí, a médica pediu que eu fosse até o lactário do hospital para receber orientação de como tirar o leite. As 11:00 subo ao 2° andar para receber a orientação, havia eu e mais uma mãe, antes de entrar no lactário fomos apresentadas a sala das mães de UTI onde podemos descansar no intervalo de cada visita, tirada de leite, enfim, ali as mãezinhas ficam conversando, guardam suas bolsas no armário...Após realizar todo o passo a passo de higienização que nos é solicitado para uso da salinha do Banco de Leite Humano, a Fernanda (responsável pela orientação), explica como é feito a tirada.
Por estar de mascara deu pra disfarçar o rosto de espanto que com certeza eu estava. Mas as lágrimas foi uma briga a parte. Briguei com cada uma que tentava cair em minha face. Enquanto a Fê falava mal pude guardar alguma informação, tudo o que vinha na mente era a ultima vez que fiz uso de bombinha logo apos a perca da Isabella, do quão doloroso foi fisicamente e emocionalmente, lembrei que enquanto minha irmã tirava o leite na bombinha massageando  o meu seio que estava todo cheio de nódulos por ter demorado de tirar, eu com um pano na boca chorava tentando não gritar pra não acordar os vizinhos, pois já era madrugada. Foi horrível. Só eu sei o quão agitada fiquei pelas lembranças que me trouxe.
Graças a Deus a Fê é um amor, falava tudo devagar e com carinho, e entre uma informação e outra perguntava das nossas bebês, com quantas semanas nasceu, qual o pesinho. Isso ajudou a quebrar a minha tensão. A máquina de medela por ser automática, também auxiliou pra que eu relaxasse um pouco no receio de sentir a mesma dor que na experiencia passada e aos poucos fui respirando, focando que a minha filha estava viva, bem e seria nutrida com meu leite, como sempre sonhei. As informações foram muitas, e aos poucos fui absolvendo o passo-a-passo no lactário, e para quem foi receber apenas orientação eu até que tinha bastante leite - cerca de 350 ml na primeira tirada. Se a Giovanna tivesse mamado no meu seio ela ia se afogar. Me senti uma Mococa. 

Alta Hospitalar 

O Rafa assinou a alta por volta das 13:00. Pagamos algumas despesas extra-hospitalar e o exame do pezinho avançado da Gi, que como meu convenio cobriu até o intermediário a diferença para o exame  ficou em apenas R$ 90,00. Logo apos, o Rafa desceu com as malas pra colocar no carro, e assim desocupar o quarto, embora eu ainda pude ficar lá até as 15:00. Quando sai ainda ficamos com a Gi até as 18:00 quando fomos pesquisar preço de maquinas para tirar leite em casa. Rodamos a toa. O melhor preço (que ainda assim é um absurdo, era no Leite Fácil, uma loja do lado do hospital). Acertamos a máquina e tão logo deu o horário de visita. Eu ainda me sentia perdida do lado da incubadora, não sabia ao certo como toca-la, como agir...Mas queria estar ali, do ladinho dela a todo momento. Por inúmeras vezes eu dizia a ela: "Oi filha, a mamãe ta aqui!É a Mamãe, filha. Estamos aqui com você. Abre o olhinho pra você ver a mamãe e o papai. Te amo sem fim...É filha. Sem fim!!!Ou melhor, te amo do tamanho do universo" (digo isso até hoje).
Quando encerrado o horário de visita foi que realmente caiu a ficha. Eu estava voltando pra casa sem barriga e sem minha bebê no colo. Todo aquele cerimonial lindo da mãe saindo com seu bebê da maternidade, do esposo auxiliando sua nova família segurando a bolsa maternidade, levando as flores que supostamente eu ganharia tinha virado quimera.
Quando descemos até o estacionamento do hospital senti as pernas enfraquecer. A vontade era de voltar naquela UTI e trazer comigo a minha bambina, minha pequena. Mas ela precisava estar ali, precisava daquelas profissionais. E eu precisava aceitar e enfrentar essa nova etapa da nossa história.
Antes mesmo de virar a esquina o choro prendido na garganta virou pranto, soluço, choros fortes de quem sentiu o coração sufocar por tanta impotência humana de não poder ajudar minha filha a não estar naquela situação, e principalmente por não saber o que fazer voltando pra casa sem ela. é um vazio que se sente que dilacera a alma. Embora tivéssemos de voltar pra casa sem a Gí, meu coração ficou lá com ela. O Rafa sempre foi mais forte que eu pra tudo, mas até ele saiu sentido...Não poderia ser diferente, afinal é a filha dele. Enquanto me via soluçar de chorar e com os olhos marejados de lágrimas pousou a mão sobre a minha perna e disse: "Eu também não queria estar voltando pra casa sem ela. Mas precisamos ficar bem, pra cuidarmos dela. Estar do lado dela. Vai ficar tudo bem." Com a cabeça fiz que sim, enquanto as lágrimas corriam em meu rosto de par em par...Não parei de chorar até que chegamos em casa. E ao chegar em casa foi ainda pior, nada em casa me fazia lembrar que havia um bebê a caminho com exceção a poltrona e a comoda cheia de roupinhas. Abri a primeira gaveta, peguei um body, imaginei ela dentro e apertei contra meu peito, como se pudesse abraça-la. Já era mais de meia-noite. Tomamos banho, passei Andolba nos pontos pra tentar aliviar a dor que estava ainda mais intensificada por falta de repouso, colocamos o relógio pra despertar as 6:00 e fomos dormir. Tudo o que eu mais queria naquele momento era que a noite passasse logo,para que as 9:00 eu pudesse novamente estar perto dela. Embora cansada, o sono demorou de vir. E depois de algum tempo, vencida pelo próprio choro, adormeci...

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Mãe de UTI - A Primeira Visita

"Ela nasceu." Pensava enquanto processava toda a história na minha mente, porque tudo foi tão rápido que sequer tive tempo pra raciocinar. Passei a noite inteira num sono leve, esperando pela hora do banho das 5:00am, idealizando o quão próximo estaria das 9:00, para que assim, eu pudesse repousar meu olhar sobre minha bambina Gí bem de pertinho. Antes das 5:00 já estava acordada. A enfermeira dá duas batidas de leve na porta, acende uma das luzes e me conduz até o banheiro. Achei impressionante o fato de o Rafa não ter acordado com o barulho, luz acessa... Cheguei até a pensar: "Isso porque quem esteve em trabalho de parto a poucas horas atras foi eu, imagine se fosse ele?!" kkkk (Tadinho, ele trabalhou naquela dia, assim como no dia anterior - demos um desconto para a kiança...). Banho rápido, observação de sangramento que estava moderado, ministração de medicação prescrita e logo após volto a dormir...Acordo novamente, pego o celular que marca a proximidade das 9:00 horas. Acordo o namorido. Pouco depois de ter acordado e se arrumado ele volta com a cadeira de rodas pra me levar onde minha 'vida' esta sendo cuidada. Nos instantes que seguiam até a chegada na UTI, eu era pura ansiedade. Cheguei a sorrir de nervosismo, porque a ví de tão longe que não sabia exatamente o que esperar a partir dali. Sobretudo estava feliz - embora não impediu de me sentir insegura, apreensiva, ansiosa e cheia de dúvidas... - mas feliz!
Namorido aperta a campainha e apesar de estar me sentindo dolorida nos pontos, levantei como quem parece estar cheia de disposição. Antes de entrar na sala em que ela estava uma enfermeira nos passa as primeiras orientações: Não é permitido o uso de anéis, pulseiras, relógios. Bolsa, blusas de frio,deixar no armário para uso dos pais na salinha do lado. Logo após, realizar higiene das mãos até o cotovelo e concluir a higienização com álcool em gel, rotinas essas que seria aplicada cada vez que eu entrasse na sala da UTI para assim poder tocar a minha bambina. Ah, e manter o cabelo amarrado. Já na sala de UTI fomos informados de se manter próximos apenas da nossa menina,  não era permitido proximidade ao bebê do lado...
Quem acha que eu prestei atenção a tudo isso quando foi dito pela primeira vez esta enganado. O Rafa foi quem me recordava do passo-a-passo.
E assim, foi nosso primeiro encontro:

Eliane Nascimento Sopran - Viver, Amar, Fazer Valer a Pena!!!


"Minha preciosa menina!
Minha Giovanna, toda forma de amor se materializou em ti no exato momento em que, pela primeira vez, meus olhos contemplou o seu ser."





Não deu pra conter as lágrimas. Eu não sabia que o amor mais puro e verdadeiro (o qual  eu ainda não conhecia) poderia se materializar em um só ser. Ah, Giovanna, como te amei em cada detalhe de seu ser..Como te amo. Deixando que as lágrimas falasse por mim de todo esse amor, meio que desconcertada abrindo as duas portinhas arredondadas e colocando minha mão dentro da incubadora tentei tocar sua pele, ainda receosa de que qualquer toque menos suave pudesse te machucar de tão frágil que sua pele, seu corpinho me pareceu.
Minha vida estava ali diante de mim, em uma incubadora aquecida e umidificada imitando a barriga, um ser tão pequenininho, magricelinha, com a pele ainda avermelhada e grudando porque ainda estava em formação...Tinha 35 cm de cumprimento, com a baixa de peso passou de 950 gramas para 830 graminhas - o que era normal -, já que é esperado que um recém nascido tenha uma perca de até 15% do seu peso.
Em seu corpinho alguns aparelhos: a começar pelo cpap - um aparelho nasal que fornece uma pressão de ar suplementar que mantém a via aérea desobstruída. Em suma, a respiração é mais da bebê do que do aparelho em sí. Todos comemoraram por ela estar no cpap, graças a Deus que deu tempo da injeção de corticoide agir por pelo menos uma semana. No entanto era perceptível que estava incomodando, ela não parava de se mexer...Mas era o melhor pra ela.
Oxímetro de pulso - o que esta no pezinho dela. É um aparelho que mede a saturação de oxigênio no organismo, como também mostra a frequência cardíaca. O monitor que fica acima da encubadora apita a cada vez que a saturação ou os batimentos cardíacos da minha menina fica abaixo do ideal.
Sonda Oral Gástrica  - é esta sondinha que vai da boquinha dela até o estomago. 
Cateter Umbilical - introduzido no cordão umbilical da bebê através de um vaso sanguíneo.
Além de todas essas coisas que me assustou um pouco no primeiro instante, havia também algumas máquinas digitais ao seu redor, tudo isso pra cuidar da minha biscoitinha, que naquele momento tava mais pra farelinho de biscoito, de tão pitica que era.
A enfermeira nos informou dos horários de visita (sim, eu teria horário para poder estar ao lado de minha bambina), bem como o horário em que os médicos passam para falar com os pais. O Rafa já estava ciente de todos os horários, já que na noite anterior ele esteve com a nossa menina. Foi o primeiro a visita-la.
As 10:00 a Dra que nos atendeu nos primeiros instantes foi a Fabiana. Super esclarecedora, disse em quais condições estava a Gi, sobre o risco de prematuridade, mas também sobre todas as condutas adotadas a fim de cuidar dela da melhor forma possível, além de informar que havia diversos especialistas que cuidaram dela. (De fato é muito mais gente que trabalha na UTI do que eu já pude ver em outro setor hospitalar, pois são muitos os cuidados com os nossos pequenos).
Naquele mesmo instante eu soube que a Dra Fabiana e Dra Silvana seria as Pediatras da Gi.
Enquanto conversávamos com a médica, eu olhava ao lado para a Gi, e me sentia tão confusa...Por vezes passei mal,a Dra pediu que eu me sentasse, era uma sensação de tontura, fraqueza, um suor frio, sentia a pressão baixando,minha pele ficava mais amarela, isso não só pelo despreparo emocional de estar ali na UTI, mas acredito que também pelo pós-parto. 
Antes de sairmos da sala, o Rafa assinou o termo para que fosse passado o PICC
Só de pensar no tempo que se leva para inserir o PICC eu já chorei. Sei que a bebê estaria sedada, não ia sentir a dor e foi nisso que me concentrei.
Logo apos nossa saída, liguei pra minha mãe, o Rafa pra mãe dele, e logo apos enviamos msg aos nosso amigos para contar que a Gi havia nascido. Preferimos que todos soubessem só depois que todo o susto do parto prematuro tivesse passado, e de fato foi melhor assim. Já tínhamos ideia de como nossa menina estava e mais ou menos como seria a rotina dela - e a nossa - dali em diante. E então, deixei minha amiga Rejane relatando por mim dos ocorridos, conforme seu primeiro post aqui no blog: Nasceu Giovanna, um milagre de Deus!!!! (Rê obrigada por tudo).

Ao voltarmos para o quarto fui trocada do 5° andar para o 1° - eu amei, estaria a apenas alguns passos de distância dela.
Embora num momento delicado como este de estar com nossa filha recém nascida na UTI  (de 26 semanas de gestação) nós celebramos tudo na certeza de que Deus - quem fez a promessa, já a cumpriu em nossa vida, pois nossa pequena guerreira é dádiva de Deus, e assim, começamos a celebrar desde seu registro de nascimento:
Eliane Nascimento Sopran - Viver, Amar, Fazer Valer a Pena!!!
A cara de acabada da mãe é um caso a parte já que eu tinha acabado de ter a  bebê..rs, então foque na certidão, ó que lindeza! Coração acelerado de emoção. Ficamos olhando para o registro de nascimento dela por um bom tempo. Babando...Agradecendo a Deus pela nossa bambina...Nós celebramos tudo, com direito até a uma pizza a noite pra comemorar seu registro!!!Sim, minha filha estava viva, e apesar da prematuridade extrema e dos riscos, ela estava estável, sendo cuidada pelo melhor hospital referencia em prematuridade na América Latina, e como eu agradeço a Deus por nos proporcionar ter os recursos pra prover um bom atendimento, num local especializado, porque em tudo o que aconteceu Ele me direcionou até este hospital, pois sabia que a Gí ia precisar dos recursos tecnológicos que este hospital possui. Mais tarde minha mãe veio até o hospital achando que poderia ver a bebê,no entanto o acesso é permitido apenas aos pais. Mas ela viu as fotos...Se emocionou, "ai, como é pequenininha...." Ah minha mãe...rs De noite veio minha cunhada e amiga escudeira Vil, e celebramos com a pizza (que eu já tava querendo desde a noite anterior.). Pouco depois fui visitar novamente minha pequena, a troca de plantão já havia ocorrido e lá conheci  uma das técnicas que eu tenho um super carinho e sei que é reciproco a Ro, que num gesto simples, mas pra nós super especial retirou o lacinho que estava na cabeça da Gí e disse: "Guarda pra você de presente pra quando ela estiver maior você mostrar pra ela e se lembrar que este lacinho tão pequenininho enfeitou sua cabecinha." Eu, obviamente, chorei de emoção. 
Eliane Nascimento Sopran - Viver, Amar, Fazer Valer a Pena!!!
Querida Filhota, papai e mamãe segura nesta foto o seu primeiro lacinho que enfeitou seu cabelinho,você ganhou das titias pediatras que te deu os primeiros atendimentos quando do seu nascimento, elas colocaram este mimo sob a toquinha que cobria seus cabelos negros de fios lisinhos. Ah filhinha, como você nasceu cabeluda. Lindamente cabeluda, puxou em tudo o papai. Já imaginei quando você estiver maior, eu penteando seus cabelos, fazendo vários penteados, te embonecando ainda mais...


Eliane Nascimento Sopran - Viver, Amar, Fazer Valer a Pena!!!
Minha Bambina, como eram miudinho seus traços, seus olhos, seu pezinho, sua mão quando nasceu. São lembranças registradas por fotos, mas que já foi selada em meu coração. E embora nos primeiros instantes a mamãe tenha ficado tensa, perdida, preocupada, é tudo porque te amo, e preferia eu estar passando por tudo isso ao invés de você. No futuro quando você já estiver uma moça, sei que ao te olhar - te admirando -, lembrarei desses dedinhos miudinhos apoiado em minhas mãos, e me orgulharei de todos os feitos de suas mãos e do quão guerreira você é,assim como já me orgulho muito. Sua garra, sua força (que sei vem de Deus), te fará conquistar o que quiser, segundo o talento que Deus lhe reserva. 


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Para Ana Hansen/Notícias da Gi

Olá Ana Hansen
Li seu relato, e como não tinha outro meio, tive de escrever aqui pra tentar retornar seu contato.
Envie seu endereço de email  para o meu email: eliane.cn@gmail.com quero muito falar com você, não da pra ler o que me escreveu sem novamente sentir e viver a história, porque infelizmente dividimos este mesmo problema...
Mesmo que eu demore um pouco, eu mandarei um email resposta.
Deus seja o consolo que o teu coração necessita.
E sempre que precisar conversar, estou a disposição. Falarei melhor via email.

E à todas as amigas,

Amo Vocês!!!sinto tanta saudade de poder parar e visitar cada cantinho pra ter noticias de todas...agradeço cada recado, o acompanhamento do relato...vocês são especiais em minha vida.
Ontem a Gi pesou 2.015 kg (vou trazer ela pra casa rolando, que tá uma bolota a minha menininha rs)
E esta SEM NENHUM APARELHO RESPIRATÓRIO desde 06 de outubro - foi uma luta, depois contarei melhor, mas o que importa é que embora demorou pra sair da entubação e do cpap, quando saiu ela se deu de presente a respiração direta ambiente, sem precisar de cateter e oxigenação na incubadora, e isso exatamente no dia em que completou 2 meses de vida - linda, linda, e linda...
Já são 70 dias de UTI, e 99 dias de internação e vida hospitalar diária somado aos da minha internação  até aqui. A cada novo dia é mais um dia de vitória e menos um dia de UTI.

Hoje eu só quero dizer: Querido Deus, obrigada por tudo!!!



Beijos com asas 


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Giovanna, você chegou...Anjo inocente que nasceu de Deus pra mim

Era por volta das 18:00 horas quando desci para o C.O.
Médicos, enfermeira, anestesista, instrumentista, pediatra, pediatra neonatologista entre outros se apresentam pra mim, com uma super positividade, alguns informando que fariam o que fosse melhor para o meu bem  estar e da bebê, e outros informando que cuidariam diretamente da Gi.
Com a atenção e cuidado que recebi de cada um deles, meu medo foi se dissolvendo.
Fui colocada na maca do C.O., na sequencia já estava sendo medicada com morfina e logo apos com  a raqui local. 
O médico que faria o parto decide na hora que não seria feito a cesária, já que a Gi estava no canal e tentar puxa-la para sair via abdome poderia machucar o seu corpinho.
Outra coisa preocupa, a Cerclagem. Os pontos deveriam ter estourado quando a bebê desceu, e  deveria ter  lesionado o colo uterino. Mas isso seria examinado após o parto. 
Não foi permitido que o Rafa participasse do parto em sí, por conta do risco, já que ela é prematura extrema.
Quando a anestesia fez efeito, o Dr fez o toque, a bolsa estourou, eu já estava com 10 dedos de dilatação, tudo ocorreu muito rápido desde que o Dr Gustavo me examinou. Em seguida é feito o corte que foi um pouco  maior pra que a Gi saísse com facilidade sem que não machucasse nenhuma parte do seu corpinho. O Dr. pede que quando ele avisasse eu fizesse força, seguro no ferro, faço força uma vez, a anestesista me ajuda, na segunda força ela empurra minha barriga, e mais uma vez força e ela empurra minha barriga e em seguida o som que sequer imaginei poder ouvir...
"Dr. Ela chorou?"
"Sim, o que você ouviu foi um choro baixinho, mas foi a sua filha. Parabéns"
Só neste momento chorei com lágrimas desenfreadas. Ergui a cabeça pra tentar vê-la, vi apenas o vermelhidão e ainda pensei: "Meu Deus como é pequenina".
A equipe a levou correndo para coloca-la na incubadora com oxigenação, e enquanto o Dr. concluía o parto, na sequência eles a trouxeram na incubadora pra que eu pudesse ver. Achei lindo o gesto deles de vir a mim em fileira festejando a vinda da Gi, entraram com sorriso no rosto me dando "Parabéns mamãe". Essa "festinha" me ajudou, eu estava tão temerosa pela vida da Gí. "Qual será o nome?" "Giovanna". "Olha o rostinho miudinho da Gi mamãe", Chorei...Eram tantos sentimentos no coração, de alegria, insegurança, medo, emoção que só as lágrimas poderia representa-los em forma de palavras.

Ah...como é bom relembrar e sentir a doce paz e o amor que suave e intenso selou nossas vidas...Minha bambina, você chegou em 06 de Agosto de 2013 às 18:33, pesando 950 gramas, com 35 cm, quando a mamãe estava para entrar no 6° mês de gestação. O seu primeiro chorinho foi de 2 segundos, o suficiente pra fazer arrebatar meu coração com muito amor para sí, amor além do que eu achei que coubesse em mim. Seu choro me trouxe tanta paz...Mesmo sendo um choro tão baixinho e curtinho, invadiu minha alma fazendo sorrir o coração.
Bambina minha, forte e guerreira. Sonho tão distante se tornando realidade. Recompensa de quem alcançou pela força e coragem o melhor presente da vida.


Poucos minutos depois que a levaram o Rafa entra na sala, contou que as pediatras apresentou a Gi pra eles na incubadora brevemente. Ele estava sobretudo, feliz! Segurava minha mão, enquanto eu via aquele sangue todo na mão do médico, naqueles tecidos azuis...Era a hora de achar a cerclagem. Eu não sentia dor, mas sentia ele mexendo em tudo dentro de mim, só nessa hora me senti desconfortável. E depois de algum tempo a cerclagem foi achada. Como Deus foi bom. A cerclagem não estourou, ela soltou, ficando presa só de um lado do colo. Melhor assim. O Dr. fez a sutura (levei 6 pontos). Toda a equipe foi se despedindo dando parabéns, e em seguida a enfermeira junto com o Rafa me levou até o pós parto para recuperação e eu apaguei de sono por alguns minutos.
Tratei de começar a mexer as pernas logo,me esforcei o máximo que pude pra voltar pro quarto o quanto antes e saber da minha bambina. Lá, foram colhido amostras de sangue para tipagem sanguínea e por volta das 22:00 me levaram para o quarto.
O Rafa já tinha ido vê-la na UTI Neonatal de risco, no 1° andar. Eu ainda estava na semi intensiva 5° andar. A vontade que eu tinha era de pular da cama e correr até o 1°. Vejo meu celular cheio de ligações, msgs...O Rafa foi na pizzaria ( e eu louca pra abocanhar um pedaço de pizza, cheguei até a perguntar para a enfermeira se podia), e a resposta é obvia que não...
Fui informada de que só as 5:00 am quando o efeito da anestesia tivesse saído por completo é que eu poderia tomar banho. Este banho seria acompanhado por uma técnica. Até lá, só o uso de cumadre era liberado.
Tudo bem. O que me importava era saber que minha bambina estava bem.
Ainda tive cabeça para responder o email de uma pessoa da empresa, solicitando ajuda...Ja era 00:30 am e fiquei tentando via celular, e depois pelo note, até que consegui responder, e assim tentar dormir.
Mas depois que fui informada de que as 9:00 do dia seguinte eu poderia ve-la, mal pude dormir, sentia-me como naquele poema do pequeno príncipe:

"Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... "

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Trabalho de Parto Prematuro com 26 semanas e 4 dias

Terça-Feira -  06 de Agosto
Acordei sentindo dor. A sensação era de uma imensa vontade de ir ao banheiro e fazer o numero 2. Ainda era 9:00, logo apos o banho percebo que as dores se intensificam, começo a me sentir incomodada em qualquer posição que eu tentasse me manter, a barriga estava pesada, coloco uma almofada por debaixo da barriga, uma no meio das pernas, e uma abaixo das pernas como indicação da fisioterapeuta, tudo em vão. Sinto vontade de chorar com aquela dor aguda que crescia em meu corpo e me sufocava de tanta dor.. Toco a campainha, a enfermeira que já havia ouvido minha queixa pela manhã deduziu o motivo do meu chamado antes mesmo que eu pronunciasse alguma palavra.
"Piorou a sensação, não foi?"
"Foi Sim. O Dr. já esta passando? Preciso que ele veja, não estou aguentando."
Dr. Gustavo chega super calmo - como sempre.
Tento descrever a sensação que sentia ao que ele disse ser possivelmente hemorroida.
"Oi? Como assim Dr.? Mas você não vai  examinar?"
"O colo esta apagado, você já esta com dilatação, fazer o toque só ira prejudicar. Vou incluir prescrição de alguma medicação, mas não antes de observar se de fato é isso. Além do mais, ontem você começou a usar o antibiótico. Vamos aguardar."
"Isso por que não é você que ta aqui morrendo de dor." - Pensei...
E tudo o que fiz foi pegar o meu livro "O que esperar quando se esta esperando" para saber sobre essa história de hemorroida, pra entender os sintomas. Não achei que me encaixei muito nele, exceto pela dor mencionada. Liguei para o Rafa, Elineuza, contei de mais essa, e rí sozinha pra não surtar, porque tudo o que não precisava era de mais um possível problema.
Tento cochilar um pouco, consigo apos ser medicada, aliviando a dor. As 11:00 sinto contrações regulares com intervalos de 5 a 10 minutos. Ao 12:00 aperto o botão de reclinar a cama para sentar, não consegui chegar nem na metade do permitido, a sensação era de estar me sentando sobre a minha barriga, e a vontade de fazer o n° 2 ficava ainda mais forte.
As 14 horas me queixo das dores, me contorciono de um lado para o outro da cama, a fisio aparece para a sessão, peço que venha outra hora, eu não tinha condições sequer de deixar me tocarem na ponta do pé, tudo incomodava de tal forma que se me soltassem no meio da rua eu fugia como um bicho pro meio do mato exatamente como um bicho faria, que era pra ninguém chegar perto de mim.
As 15:30 o Rafa me liga dizendo que estava indo pra casa pegar roupa pra ele e seguiria logo apos para o hospital. Eu até falei da dor, mas não enfatizei com a mesma intensidade que senti pra não preocupa-lo.
As 16:00 ligo pra ele agonizando de dor, pedindo que viesse ao hospital. Lembro de ter conversado com Deus e me arriscado a dizer o que sentia mesmo achando que não poderia nunca me queixar de qualquer dor: "Deus me perdoe, eu já não estou aguentando mais, me ajude". Chamo a enfermeira que solicitou avaliação do Dr. Gustavo. Me levanto da cama, pra ver se ao dar um passo que fosse a dor aliviava. Pra que tentei isso? Foi pior do que imaginei. Começo  a chorar sem sequer sair uma lágrima, me olhei no espelho e vi meu rosto, os olhos e pálpebras vermelhas de tanto choro prendido. A vontade que eu tinha era de eu mesma fazer o toque em mim de maneira a reposicionar a bolsa amniótica, porque uma coisa era certo: não era hemorroida coisíssima nenhuma e algo estava errado por ali. Volto ao banheiro, tento andar, tento deitar, chamo a enfermeira, retorno ao banheiro, abro o chuveiro, quase arranco o acesso do meu braço, e fico debaixo da água pra tentar relaxar. Rafael chega, e antes mesmo que pegasse sabonete ou qualquer outra coisa pra me ajudar no banho eu já começo a gemer e chorar, essa sensação de querer usar o banheiro é a pior possível. A enfermeira entra no banheiro pra avisar que o Dr. já esta chegando no quarto, quando saio o dr. pede que me deite, me examina e diz:
"Essa sensação que você esta sentindo de querer fazer o numero 2 é a sua bebê que já esta com a cabeça no canal vaginal, esta nascendo. No exato momento em que você sentiu essa vontade grande já indicou que a bolsa desceu pressionando o canal anal o que dá essa sensação de que você  precisa fazer coco. "(pode parecer feio falar assim, ainda mais eu que sempre sonhei com um parto humanizado, mas acho importante saber exatamente como é, que é pra não se iludir com um parto romântico. Salvo exceções que conseguem tranquilamente parir e cantarolar ao mesmo tempo...).
"Mas Dr. pela manhã você me disse que poderia ser hemorroida"
"Eu até peço desculpas, mas não queríamos fazer o toque pra não complicar seu quadro, mas agora que fiz o toque eu sinto a cabeça da bebê aqui no canal. Precisamos fazer um parto de emergência, já vou solicitar agora que te desçam para o C.O., antes a enfermeira irá te preparar para a cesária."
"Mas cesária?"
"Sua bebê é muito prematura, se fizermos o parto normal as chances de machuca-la - devido a fragilidade dela -, é muito grande. E você também iniciou ontem o antibiótico por conta de uma infecção, e na passagem do bebê no canal vaginal ela pode ser contaminada. O parto irá demorar um pouco pois precisaremos abrir, puxar com cuidado ela da posição do canal vaginal - onde esta, até que sai com cuidado. Mas será o melhor pra ela."
Eu só queria que ela ficasse bem, e que fosse feito o melhor pra ela. Mas pela prematuridade (26 semanas) fiquei apavorada com receio de algo ocorrer. Olhava pro Rafa sem conseguir dizer nada. E chorei. Como chorei.
As técnicas me prepararam para a cesária. A Pati - enfermeira sempre um amor comigo, tentou me tranquilizar porque meu maior medo era a prematuridade extrema.
Já uma das técnicas de enfermagem foi uma grosseira, indelicada comigo, e mais tarde reclamei dela no sac e a advertiram.
Já no corredor da Unidade Semi intensiva peço para o Rafa ver quem iria fazer o meu parto, pois até o momento contava com meu médico, Dr. Luiz Baruki. Não dava tempo, o parto seria feito em caráter de emergência ou a Giovanna entraria em sofrimento fetal, logo, seria quem estivesse disponível. Daí que choro pra valer. O Rafa segura minhas mãos pedindo pra eu tentar manter a calma e confiar que seria feito o melhor por nós duas. Ele orou comigo ali mesmo. Quer dizer, eu entre um choro e outro tentei acompanha-lo no Pai nosso.
Eu até questionei se ele poderia assistir o parto, informaram que sim. Então o Rafa foi se paramentar para entrar no C.O. enquanto uma equipe gigante esperava por mim e pela bebê, já que sendo de risco, além da pediatra, havia equipe da UTI Neonatal para prestar os primeiros atendimentos.
Enquanto todos se organizavam, e me posicionavam, eu só pensava em uma coisa:
"Deus, eu fiz tudo o que podia pra mante-la aqui no forninho, mas agora que é pra nascer, que ela possa nascer pra lutar e vencer. Ajude minha filha, agora é contigo Senhor"...